Entre o Diabo e o Mar Azul Mais Profundo

domingo, 6 de julho de 2008

Amores Brutos


Tem 3 anos e meio. Estava entretida em me contar uma história na qual havia um morcego e uma "morecega". No fim das contas, o morcego casa-se com a "morcega". Pausa. Carinha triste e bico, antes de declarar:

- Eu não posso me casar.

E eu, dando corda:

- Mas por quê?

- Porque sou muito pequenininha.

Mais lenha na fogueira:

- Mas, se você fosse casar, com quem seria?

- Com o Fred.

Rápida explicação: sei que ela é o xodó dos meninos na creche e que o seu grande admirador declarado é o Luiz Gabriel, que vive alardeando aos 4 ventos que ela é uma princesa. Surpreso com a declaração, quero saber mais sobre essa nova paixão:

- Ué... mas não é o Luiz Gabriel?

Ela balança a cabecinha, negativamente. Eu não desisto:

- Mas quem é que te chama de princesa?

- O Luiz Gabriel. (pausa) O Fred pega a garrafa de suco dele e senta na minha frente. Depois ele vai e derruba tudo no meu vestido!

- Ah! E é por isso que você vai casar com ele?

E ela, com a cara mais natural desse mundo:

- É!

sábado, 5 de julho de 2008

Nova tentativa de contato


No fundo, todo blog é uma tentativa de se organizar o virtual dentro de nós mesmos...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Eu nunca fui paixão de ninguém...



Desacostumei de carinho
(Fátima Guedes)

Desacostumei de carinho
Não pegue desse jeito em mim
Que eu passei tanta dor que ainda hoje guardo
Uma semente ruim

Apenas não me olhe assim
Que eu tenho pronto um sorriso amigo
Que me defende do perigo
E guarda você de mim

Desculpe, mas por dentro
Eu sou tão machucada...
Eu nunca fui paixão de ninguém
E sempre a tola apaixonada

Eu desacreditei de amor
Não pegue desse jeito em mim
Quem sabe eu passo pra você
Minha semente ruim

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Nobreza




Encontrei uma pérola no Youtube, uma "master class" dada pelo mestre no fim da vida. A gravação deve ser do fim dos anos 70 ou começo dos anos 80, Rubinstein contava com mais de 90 anos, já havia se retirado das salas de concerto e a cegueira o impossibilitava de tocar.

Mesmo assim é impressionante o que ele extrai da música de Chopin e tenta passá-la ao jovem pianista (se eu não me engano, Ilan Rechtman, um israelense que posteriormente tornou-se bem sucedido, venceu alguns concursos de música erudita e passou para o jazz).

O discurso de Rubinstein, ao final, é tocante: diz ele que a música nunca deve soar pomposa e, sim, nobre. A nobreza é a característica máxima da música. Até mesmo a música popular deve ser feita com nobreza, senão não pode ser boa.

Aprendamos-lhe a lição.


http://youtube.com/watch?v=3-NLrSRZkmE

sábado, 19 de janeiro de 2008

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

It could happen to you


Ouvindo Chet Baker e lendo a sua biografia ("No fundo de um sonho: a longa noite de Chet Baker", de James Gavin, pela Companhia das Letras - 493p., 2003), penso no quanto desilusão e força de vontade podem coexistir num mesmo homem.

Lembro-me de que Billie Holiday, certa vez, exausta de lutar contra o vício em heroína, chegou a desabar no chão e a confessar: "Porra, não agüento mais", para, no instante seguinte, se reerguer e declarar: "Sabe o que vou fazer? Subir lá e cantar de novo".

Chet era assim. Da mesma forma caiu e se levantou tantas vezes quantas lhe foi possível suportar aquela vida ancorada a uma gigante montanha russa, na qual tanto seu coração quanto sua arte iam atrelados. E não por ironia foi perecer de uma queda, a fatal, da janela do terceiro andar de um hotel, em Amsterdã.

Um herói sem caráter? É o que se deduz depois que se lê o que James Gavin expõe em seu livro, nas intermináveis mostras de como Chet agia com as pessoas à sua volta na tentativa de conseguir drogas. E eu me pergunto: o quão pouco (ou nenhum) caráter pode ter alguém que atrás de si foi capaz de espalhar ao mesmo tempo tanta beleza e tanto sofrimento?

domingo, 13 de janeiro de 2008

Domingo

mastigadas
as horas
despem
angústias
e depois
se moem
de remorso

sábado, 12 de janeiro de 2008

Ana Cristina César


faz três semanas
espero
depois da novela
sem falta
um telefonema
de algum ponto
perdido
do país

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

We're alone in the night...



Foi através desse disco que se deu o meu primeiro contato com Lady Day.

“Mas justamente desse?”, alguns poderão me perguntar. Justamente através do penúltimo disco dela, onde se notava nitidamente o desgaste imenso da voz, e que muitos simplesmente desconsideram porque foi gravado com uma luxuosa orquestra de cordas e com arranjos de Ray Ellis, um músico que sobrevivia de gravar álbuns com “mood music” ou “música de elevador” (numa tradução aproximada)?

Sim. Justamente esse. E me arrisco a dizer que, se não fosse através dele, eu talvez não me apaixonasse tão profunda e perdidamente por essa mulher. Lá vai minha historinha:

Eu era moleque, tinha lá uns 16, 17 anos. Conhecia pouca coisa de jazz instrumental, principalmente algumas big bands (os Dorsey, Artie Shaw, Harry James, Glenn Miller...), e começava a travar contato com os vocalistas através de Louis Armstrong e Sarah Vaughan. Fora isso, não conhecia mais nada. Um dia, perambulando por um shopping, resolvi me aventurar numa loja de CDs. Pra quem é do Rio de Janeiro e pegou essa época (final dos 80, início dos 90), havia uma cadeia de lojas de CD que se espalhou pela cidade e virou uma verdadeira febre. Todo lugar tinha uma Prodisc: shoppings, bairros, até mesmo postos de gasolina (o da Praça da Bandeira tinha uma).

Pois bem, numa tarde preguiçosa de ócio escolar, entrei numa Prodisc. E fiquei lá, revirando os CDs da seção de jazz, movido muito mais pelo colorido das capas do que pelas informações de que eu dispunha sobre o gênero musical. O vendedor (o único na loja naquele dia) se aproximou de mim e me perguntou se eu procurava algo em especial. Distraidamente, respondi que não, que estava apenas olhando os discos. Ele se afastou e me deixou quieto, na minha função.

Aliás, “quieto” é a palavra certa para descrever o clima da loja. Curiosamente reinava, naquela hora, o maior silêncio e não havia nem mesmo um daqueles discos promocionais berrando os modismos do momento, a fim de atrair compradores. Assim, na maior paz, eu continuei a olhar os CDs.

De repente, aquele som vindo de toda parte. Uma orquestra de cordas... violinos, violas e violoncelos gemendo uma introdução que mais parecia um lamento. Logo depois de uma pausa breve, a voz rouca, cortante, lâmina azul rasgando o silêncio, vibrou as palavras mágicas: “I’m a fool to want you, I’m a fool to want you...”

Aquilo me deixou arrepiado até o último fio de cabelo da nuca e eu imediatamente me voltei para o vendedor: “Quem é?”, perguntei. “Billie Holiday”, ele me respondeu, estendendo para mim a capa do CD, o perfil sem sorriso estampado no fundo azul, aquele rosto, aqueles olhos. “Eu quero!”, disse. E ele: “Eu sabia que ia te fisgar com esse!”

Tinha razão. Fui fisgado para sempre com o “Lady in Satin”, por aquela voz carregada de dor e desilusão que, como disse um crítico, significava “o drama inscrito a ferro e fogo na carne viva da canção.”

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LADY IN SATIN
(Columbia – recorded Feb. 1958)

Billie Holiday
with Ray Ellis and his Orchestra

1. I'm A Fool To Want You (J. Wolf/J. Herron/F. Sinatra) 3’23
2. For Heaven's Sake (S. Edwards/E. Bretton/D. Meyer) 3’26
3. You Don't Know What Love Is (D. Raye/G. DePaul) 3’48
4. I Get Along Without You Very Well (H. Carmichael) 2’59
5. For All We Know (J. F. Coots/S. Lewis) 2’53
6. Violets For Your Furs (Adair/M. Dennis) 3’24
7. You've Changed (M. Carey/C. Fisher) 3’17
8. It's Easy To Remember (R. Rodgers/L. Hart) 4’01
9. But Beautiful (J. Burke/J. Van Heusen) 4’29
10. Glad To Be Unhappy (R. Rodgers/L. Hart) 4’07
11. I'll Be Around (A. Wilder) 3’23
12. The End Of A Love Affair (E. Redding) 4’46

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Para baixar:

http://rapidshare.com/files/11118230/Lady_in_Satin.zip.html

domingo, 6 de janeiro de 2008

You've got me in between...



Faz tempo que criei esse blog, mas até hoje não havia me decidido a escrever pelo simples fato de não saber o que fazer com ele.

Veio a idéia: a vida é um improviso de jazz. E o título, uma tradução livre de uma canção antiga, que ouvi pela primeira vez através do piano de Thelonious Monk, cujas notas pingadas e súbitos silêncios me encheram de assombro e admiração.

Com idéia e título nas mãos (ou na cabeça), faltou-me o conteúdo. Sobre o que escrever? Jazz? Música? Improvisos? Poesia? Vida? Banalidades? Cotidiano? Cinema? Imagens? Cheiros? Gostos? Tons? Como encontrar um foco entre tantos e tão variados interesses?

Deixei quieto. O tempo passou, me esqueci desse espaço, idéias surgiram e sumiram, a vida seguiu sua marcha ora frenética, ora mansa, os sons se alternaram nos tímpanos, imagens, cores e formas se grudaram na retina, cheiros e gostos se agregaram ao palato e, da mesma forma, a vontade de escrever se aninhou novamente nos dedos.

E assim, entre o diabo e o mar azul mais profundo, reassumo o compromisso de registrar tantas e tão vastas emoções e pensamentos imperfeitos (sim, eu sei que isso é uma paródia) sem a preocupação de traçar um plano, de catalogá-los (que o pesquisador estruturalista há muito se perdeu por entre as estantes da biblioteca da velha faculdade) ou agrupá-los sob as malhas frágeis do entendimento cartesiano.

Antes, fiel ao piano atônito de Monk, vou agrupando perplexidades para dá-las de presente a quem quer que se disponha a prestar atenção nessas notas pingadas, nesses silêncios súbitos, nesses instrumentos de assombro.