
Foi através desse disco que se deu o meu primeiro contato com Lady Day.
“Mas justamente desse?”, alguns poderão me perguntar. Justamente através do penúltimo disco dela, onde se notava nitidamente o desgaste imenso da voz, e que muitos simplesmente desconsideram porque foi gravado com uma luxuosa orquestra de cordas e com arranjos de Ray Ellis, um músico que sobrevivia de gravar álbuns com “mood music” ou “música de elevador” (numa tradução aproximada)?
Sim. Justamente esse. E me arrisco a dizer que, se não fosse através dele, eu talvez não me apaixonasse tão profunda e perdidamente por essa mulher. Lá vai minha historinha:
Eu era moleque, tinha lá uns 16, 17 anos. Conhecia pouca coisa de jazz instrumental, principalmente algumas big bands (os Dorsey, Artie Shaw, Harry James, Glenn Miller...), e começava a travar contato com os vocalistas através de Louis Armstrong e Sarah Vaughan. Fora isso, não conhecia mais nada. Um dia, perambulando por um shopping, resolvi me aventurar numa loja de CDs. Pra quem é do Rio de Janeiro e pegou essa época (final dos 80, início dos 90), havia uma cadeia de lojas de CD que se espalhou pela cidade e virou uma verdadeira febre. Todo lugar tinha uma Prodisc: shoppings, bairros, até mesmo postos de gasolina (o da Praça da Bandeira tinha uma).
Pois bem, numa tarde preguiçosa de ócio escolar, entrei numa Prodisc. E fiquei lá, revirando os CDs da seção de jazz, movido muito mais pelo colorido das capas do que pelas informações de que eu dispunha sobre o gênero musical. O vendedor (o único na loja naquele dia) se aproximou de mim e me perguntou se eu procurava algo em especial. Distraidamente, respondi que não, que estava apenas olhando os discos. Ele se afastou e me deixou quieto, na minha função.
Aliás, “quieto” é a palavra certa para descrever o clima da loja. Curiosamente reinava, naquela hora, o maior silêncio e não havia nem mesmo um daqueles discos promocionais berrando os modismos do momento, a fim de atrair compradores. Assim, na maior paz, eu continuei a olhar os CDs.
De repente, aquele som vindo de toda parte. Uma orquestra de cordas... violinos, violas e violoncelos gemendo uma introdução que mais parecia um lamento. Logo depois de uma pausa breve, a voz rouca, cortante, lâmina azul rasgando o silêncio, vibrou as palavras mágicas: “I’m a fool to want you, I’m a fool to want you...”
Aquilo me deixou arrepiado até o último fio de cabelo da nuca e eu imediatamente me voltei para o vendedor: “Quem é?”, perguntei. “Billie Holiday”, ele me respondeu, estendendo para mim a capa do CD, o perfil sem sorriso estampado no fundo azul, aquele rosto, aqueles olhos. “Eu quero!”, disse. E ele: “Eu sabia que ia te fisgar com esse!”
Tinha razão. Fui fisgado para sempre com o “Lady in Satin”, por aquela voz carregada de dor e desilusão que, como disse um crítico, significava “o drama inscrito a ferro e fogo na carne viva da canção.”
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LADY IN SATIN
(Columbia – recorded Feb. 1958)
Billie Holiday
with Ray Ellis and his Orchestra
1. I'm A Fool To Want You (J. Wolf/J. Herron/F. Sinatra) 3’23
2. For Heaven's Sake (S. Edwards/E. Bretton/D. Meyer) 3’26
3. You Don't Know What Love Is (D. Raye/G. DePaul) 3’48
4. I Get Along Without You Very Well (H. Carmichael) 2’59
5. For All We Know (J. F. Coots/S. Lewis) 2’53
6. Violets For Your Furs (Adair/M. Dennis) 3’24
7. You've Changed (M. Carey/C. Fisher) 3’17
8. It's Easy To Remember (R. Rodgers/L. Hart) 4’01
9. But Beautiful (J. Burke/J. Van Heusen) 4’29
10. Glad To Be Unhappy (R. Rodgers/L. Hart) 4’07
11. I'll Be Around (A. Wilder) 3’23
12. The End Of A Love Affair (E. Redding) 4’46
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Para baixar:
http://rapidshare.com/files/11118230/Lady_in_Satin.zip.html