Entre o Diabo e o Mar Azul Mais Profundo

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Mínimo conto de ano-novo

Quando ele acendeu o último cigarro do ano, faltavam ainda alguns minutos para a meia-noite. O suficiente para uma tragada ou um suicídio, pensou, amaldiçoando a onda politicamente correta de não mais se poder fumar em lugar algum.

Depois olhou pela janela do apartamento e deu com a alegria nas ruas, a barulheira de vozes que se misturavam à música e aos fogos que iam pouco a pouco enchendo o ar de fumaça, menos discreta, é claro, do que essa que subia lentamente da ponta em brasa do cigarro, por um segundo afastado da boca, e que se juntava àquela soprada pelo hálito dele, em torvelinho.

Por uma absurda insistência em dedicar-se à fé ou à esperança, teceu um pedido silencioso, não sem antes se perguntar se alguém (ele mesmo, quem sabe?) poderia ouvi-lo, tamanha a fúria desencadeada pela contagem regressiva que, a partir daquele instante, reverberava em ondas pela multidão nas ruas e subia em espirais, como a fumaça, pelas árvores, pelos postes de luz, pelas paredes dos prédios, pelos sentidos até então anestesiados pela expectativa.

Não falta mais nada... nem você, murmurou, enquanto o vozerio do povo ecoava dentro de si, entoando o mantra dos dez segundos derradeiros do ano que se despedia. Sobre a brasa ainda acesa do cigarro e contra o ruído surdo dos artifícios, saltou ao encontro do ano-bom sem poder ouvir sequer as batidas do próprio coração.

Um comentário:

Rafael Paschoal disse...

E tudo acaba [ ou começa ] num banho de prosecco, com sorrisos largos, abraços soltos e uma ínfima esperança de que o futuro possa vir a ser melhor...

Abraço!

R. Paschoal
http://suburbanismos.blogger.com.br